quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Para falar de saudade


 

Pensei em você hoje. Pensei por todo dia. Na verdade mesmo, ando com você em meus pensamentos. Nos caminhos que nos separam, nas pontes que nos une. No quão lindo é seu sorriso, espontâneo, cheio de vida; como o mundo fica mais colorido quando você se veste de alegria e sorrisos, e o planeta é tão cheio de cores todos os dias. Penso no seu mau humor sinistro pelas manhãs, até você acordar completamente, principalmente quando põe algo para tocar – as vezes Bethânia, noutras Gal ou Gil, mas sei quando está triste quando coloca o disco da Nana ou saudoso com o da Elizeth. E saímos para a nossa lida diária. Logo após o almoço lembro do cochilo, de dizer que acorda mais disposto e quando levanta, o chá de capim limão, o cigarro, o incenso de alfazema. Lembro disso com sorriso nos lábios. De noite, o cheiro da sopa que fez para mim e você comendo salada com atum que eu sempre reclamo por não gostar e você se esbaldando e rindo. Vou para a rede, de onde estou te vejo e você me vê. Daqui a pouco você ri enquanto me olha e me derreto todo. Pergunta se quero que balance a rede, sabe que gosto, mas sempre pergunta e vem depois que digo que sim, e conversamos banalidades. Falo do meu dia, você me conta sobre o seu, das fotografias, da luz, dos ângulos e me encanta te ver falar com paixão, daí você se deita comigo, prepara e acende um fininho e vamos nos esquentando com todo calor e erva. As vezes põe o disco do Chico ou Caetano, e canta alto, empolgado e me beija sem demora. Silenciamo-nos ouvindo a canção. Lembra quando compramos o disco da Ângela Rô Rô e ao tocar “amor, meu grande amor”? Você me olhou tão profundamente e depois me beijou com volúpia. Fizemos amor na sala, no banheiro e na cozinha logo após bebermos água e nos vimos com fome um do outro, de comida, de vida. Você pediu para eu fazer uma massa. Disse que meu tempero era gostoso, lembra? Lembro-me. De tudo. Como se fosse um filme. E amo cada detalhe, por que você está em tudo, inteiro, sempre. Escrevi porque a saudade está assolando. Sei que só fazem dois dias que foi ver sua mãe, seu pai, seus irmãos. Mas eu fiquei aqui com os detalhes todos que você me dá. Como estão todos aí? Diga que mando beijos. E que irei contigo da próxima vez. Antes de dormir, liga. Quero ouvir sua voz. Quero saber do seu dia, quero seu sorriso, mesmo que distante. Aqui está tudo bem, tirando a saudade. Alimentei-me direitinho. Tomei a sopa que você deixou na geladeira – deliciosa como sempre. Bom, aguardo sua ligação. Alonguei-me, não é? Precisava dizer o quanto você é importante, o quanto tenho amor por você. E paixão. Paixão demais. Fiquei excitado só em escrever. Ops! Amo. Amo você.

Beijo

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Temporada de caça


Livre inspiração na canção
Temporada fora de mim
de Hélio Flanders

 

 

Que foi feito de mim?

Realidade ou delírio?

Respiro. Acendo um cigarro.

Tento o diálogo.

O outro fala como se fosse eu.

Invertido.

Fala enquanto pergunto.

Não consigo entender o que diz.

Acabo mais agoniado.

Penso em sair, embebedar, ver gente.

Com um murro quebro o espelho.

Vejo milhares de mim em cacos pelo chão.

Todos trazem um grito

São os sentimentos desesperados

Começo a catar...

Percebo que não posso jogar fora quem sou e reconheço

Meu sangue escorre sobre o pedacinho do medo

Deixo tudo como está

Enrolo minha mão na toalha branca

Quando abrando os pensamentos

Volto para a cama

Percebo que quem via era impressão

Não existe sangue

Mas existe dor

Estar só me assusta

Acendo a luz

Fantasmas não gostam de claridade

Tudo não passa de um sonho que não é.

Tudo isso me cansou.

Preciso dormir.

Amanhã será outro dia.

Recomeço.

sábado, 3 de setembro de 2016

da fresta. da porta. do tamanho que tem que ser.


anyway...

 

 

Estou com a nítida impressão de que irá chover. Está faltando mais pouco do que tudo. Esqueci meu guarda-chuva em algum lugar. Mas também como não haveria de esquecer? Tem coisas que nasceram para serem esquecidas. Mas estava falando do pouco que falta diante de tudo que já se tem. A calmaria que sempre busquei. Assim estava por aqui. Mas tu vieste balançar meu barraco, tirar tudo do lugar e me mostrar que tudo não passava de uma aparência. Porque diacho apareceste? Diz! Tu chegaste com essa turbulência toda. Contigo, atrás, no meio de ti, vento. Essa ventania saindo de tua boca. A energia do contraste. Espalhaste tua farofa, mexeu com meu axé e ainda querendo ir mais além. Tudo ficou por um triz. Vieste instaurar o caos. Enquanto pensava que meu couro era duro, que nada seria capaz de me tirar do prumo, que de fato muito pouco faltava perante o todo-tudo. E esse tiquinho não mexia comigo, não me ouriçava. E foi por essa fresta que tu adentraste. Um ratinho, um serzinho minúsculo, que não metia medo em nada e nem ninguém. E foi na tentativa de te matar que me mordeste o calcanhar. Transmitiu a erupção, maremoto, o espasmo, febre, delírio. Não fui e não sou sem convicções. Longe disso. Mas é que tua força se fez. E tua força dorme junto com a paixão. Foi esse veneno que a princípio me fez desmoronar. Depois que meu sangue se transformou em soro, que meu corpo percebeu que não podia e nem devia lutar. E uma vez entregue, ficou evidente que falta muito de tudo e pouco é o tempo. Mas do pouco espaço de tempo que tenho, quero sair por aí em meio a tua ventania. Afinal, toda essa força que o amor tem, não tem como prender.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016


enGRAVidaDO

 

Espelhos não mostram quem sou.

Essa imagem invertida não me representa.

 Não a reconheço.

 Sou vidro. Vazio e leve. Grave. Engravidado.

 Vejo-me do outro lado.

Pronto para me esbaldar. E ponto.

 

 

Tenho espelhos por toda casa. E tenho vidros também. Já não me olho em espelhos. Corro deles, fujo como dizem que o diabo foge da cruz. Não é medo. É mais uma questão de não reconhecimento. Por isso ando preferindo vidros. Por isso cobri todos os espelhos. Não quis botar fora. Pode ser que em algum momento queira ver a imagem que aparece invertida. Mas com os vidros me entendo bem. Apenas uma leve sombra reflete. Mas tudo o mais é vazio, é transparente, no máximo se vê coisas dentro. Mas coisas que não são de dentro de mim. Na cristaleira por exemplo, vejo todos os cristais, taças, xícaras, copos de uísque, compoteiras. Mas eu não. Eu vazio, livre para me preencher de tudo que for escolha minha, apto para escrever neste papel em branco, uma alma limpa como uma tela onde posso tratar tintas e texturas ao meu modo. Mas espelhos não. Eles mostram uma criatura feita pelas escolhas, impressões, desejos, moldes de outras pessoas. Não tem minha impressão digital, não tem meu sangue, meu suor, meus sustos, intempéries, gritos de basta, silêncios prazerosos. Não tem nem uma fissura minha. Então aqui me faço, vidro. Grave. Engravidado.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Em se deixar levar e lavar


Para se ler ouvindo Romeo nas vozes de

Thiago Pethit e Hélio Flanders

 
Meio que sem jeito tudo começou. Depois parecia ir se encaixando de forma leve, mas precisa. Não minto em dizer que não dava nada. Juro! Não acreditava que fosse ir mais, além. Talvez aí esteja o segredo. Verdade seja dita. Creio que você também não apostava tanto. Fomos tão desleixados, despreocupados. Isso! A palavra correta é essa: despreocupados. Eu não liguei porque achava que seria precoce e afobado. Você não ligou. Não sei porque não ligou, mas deveria ter o sentido de espera, de saber qual o próximo passo que daria. E do nada nos encontramos no bar. Tenho tudo como uma cena fílmica – ao passo que eu chegava ao balcão para uma primeira bebida na noite, você voltava do banheiro, ajeitando os cabelos desgrenhados. Nos vimos, rimos com os olhos primeiramente, para depois esboçar nos lábios o prazer do encontro. Cumprimentamo-nos primeiro como amigos, mas aquele abraço me veio tão protetor. Seu cheiro me invadiu e causou um frenesi. Um instante eterno. Ali mesmo justificamos de forma tola nossas ausências, desprendendo desculpas esfarrapadas. Esquecemos por certo momento que estávamos ali, cada um com seus amigos. Ao me oferecer uma bebida acabou me lembrando que tinha ido ali justamente para buscar uma. Ri, meio que sem jeito, por me ver perdido e preso aos seus encantos. Falamos ao mesmo tempo num convite para nos juntarmos a mesa e companhia que estávamos. Rimos juntos. Mas rimos mesmo e eu olhava seus lábios e dentes e me sobrava desejo de te beijar. No fundo no fundo, eu queria ficar só com você ali ou ir para qualquer outro lugar, desde que fossemos somente eu e você. E mais uma vez você me surpreendeu. Parecia ler meus pensamentos, meus olhos, minha alma. E então largou aquelas palavras como quem solta fogos de artificio – vamos há algum lugar? Só nós dois? – estremeci, ardi, ri um riso bobo de entrega. Paguei as bebidas. E fui em direção aos meus amigos. Disse que estava indo. Eles não precisavam de justificativas, primeiro por serem amigos verdadeiros e depois, por terem visto a forma com que conversávamos. Saímos dali ainda sem saber para onde iriamos, mas isso pouco importava e ainda hoje pouco me importa para onde vamos. Afinal, em estar contigo sinto que podemos construir qualquer coisa. Quando entramos no taxi, olhamo-nos numa indagação para onde deveríamos ir. Os teus olhos quase fechavam no sorriso farto e isso me encantava profundamente e encanta até hoje. Roubou-me um beijo. Você deu o seu endereço e partimos. Sentia-me numa montanha russa, tamanho o frenesi em meu estômago. Uma eternidade se fez dali até sua casa. Conversávamos com o intuito de fazer o carro ir mais rápido. Sabíamos que nosso vulcão estava prestes a explodir. Sua mão em minha perna. Meu braço em torno ao seu pescoço. Dali em diante é tudo que eu rezava e pedia a Deus. Creio que silenciosamente você agradecia. Nesse exato momento que volto a esse dia, vejo você com sua mania de enrolar os cabelos com as pontas dos dedos e ainda fico encantado como da primeira vez. Tanto tempo se passou e ainda agora tenho seu suor me lavando a pele. Deito minha cabeça em teu peito e sinto seu coração me irrigando de amor. Você se reclina e sela seus lábios em minha testa. Deixa ali a marca dos lábios que tanto amo ver sorrir. Rio e do nada você diz – eu também te amo. Você não perdeu o poder de me ler e isso me faz muito feliz.
 
Plínio Gomes

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Previsões


Para se ler ouvindo Speak Your Heart de Lizz Wright

 

A previsão do tempo acusa chuvas passageiras em pontos isolados da cidade. O horoscopo do mês diz que uma série de eclipses no eixo leão-aquário movimentarão muitas coisas durante quase dois anos. E o do dia, com a lua nova em virgem, que chega com tenso aspecto com saturno e netuno, também acompanhada de um eclipse, indica que um namoro pode começar a ser desenhado pelo universo e trazer as mudanças necessárias à minha vida.  Tomava uma xícara de café enquanto fingia que ouvia o noticiário pavoroso e observava esses pormenores astrais. Desliguei a TV, coloquei um disco para tocar. Precisava correr contra o tempo. Sempre acordo lento nas segundas. Pareço não querer sair do estado letárgico do fim de semana. Bem na verdade, ando lento demais, para tudo, para o mundo. Acho que o relógio do meu corpo e da minha mente vive em slow motion. Tenho preguiça de conversas chatas, de pessoas superficiais. Mas porque preciso pensar nisso para tomar banho? Outra coisa que tem mexido comigo – pensar demais. Devíamos ter um botão de ligar e desligar pensamentos. Porque tem momentos que pensar cansa, dói, maltrata. Quinto dia útil do mês numa segunda-feira. Quem merece? O banco vai estar lotado. As contas vencem hoje para mim e para o resto do mundo. Não posso esquecer de alimentar os peixes da vizinha. Por que uma pessoa que mora só e vive viajando inventa de ter animais ou mesmo plantas? Tenho a impressão de que estou esquecendo alguma coisa. Banho! Olha aí os pensamentos me consumindo. Acho que vou por bota. Se chover não irei ficar com os pés molhados. Vou usar aquela calça jeans que me cai bem. Camisa azul ou verde? Azul, para destacar meus olhos. Se a previsão se confirmar, as coisas podem mudar em minha vida. Banho. Preciso tomar banho e parar de pensar. Mais um gole de café e pronto. Ah! Não se esqueça dos peixes da vizinha.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Quero Romance

Os dias passam dentro do mecanicismo-nosso-de-cada-dia e tudo quer ser urgente, mas essa urgência toda é rasa, não ultrapassa a camada mais fina da pele. Acordar, ir academia,  ao trabalho, conversas rápidas, mensagens em vez de ligações, e-mails, impessoalidade. Onde podemos mergulhar de fato neste rio? Ou ainda temos muito que andar com água pelos joelhos até uma profundidade que nos mereça? Quero romance. Sim, quero cores, estampas, quero beijos roubados, dados, a utilidade do sim, sons de tudo que marca. Sabe aquela besteira toda de recadinhos na geladeira, no espelho, nas portas? Quero todas. Porque sentimento é para sentir, viver, saborear. Quero sensibilidade à flor da pele sem medo. Estou dando a cara a tapa e mesmo que doa, quero dar a outra face ao amor também. Já passamos de tudo e com isso deixamos passar o carinho, o afeto, o que de fato nos faz diferente de tudo. Quero mar, mergulho de cabeça, pôr do sol com todas as suas cores, o nosso papo untados em suor, o beijo na testa de coragem, o olhar de fora, o ver de dentro, o parque, o circo, o teatro, cinema e pipoca grande pra dois. Romance de viagem, de verão, de primavera e todas as estações, a sopa no dia frio e as letrinhas todas que vem com elas traduzindo cuidado. Cuidado. Que palavra importante. Estar em sintonia com o outro e consigo, fazer o bem, não medir esforços para agradar. Para se ter romance tem de ir mais além do rosto bonito, da conversa-entrevista, do corpo em forma, de onde moramos e o que fazemos para ganhar a vida, porque em romance tudo pode acontecer, o mundo muda, pessoas também, mudamos de lugar, de trabalho, transferimos as energias para o que nos faz bem, alteramos os hábitos, corremos na orla, nadamos, porque romance traz outras necessidades, prioridades, é vital. Vamos ao contento da pele, da língua, do ouvir sonoro, da música tema, das risadas soltas. Quero a tela em branco para usar todas as formas de arte que dois, juntos, podem imprimir sobre. Quero o romance da ponta dos dedos sobre minha pele, da minha mão sobre seu rosto, do braço em torno ao pescoço, do banho de gato, do esfregar as costas. Quero o romance das diferenças, do sal, da saudade para querer estar juntos, do crescer e construir. E pensar no futuro e sentir orgulho de tudo que podemos viver, a superação das crises, porque nosso alicerce é bem mais profundo. E quando parecer que não há mais novidade alguma, que possamos nos reinventar em romance, outras formas, outros tantos quereres, novos campos de descoberta, porque somos enormes quando junto, unidos e parece que o tempo será pouco para tudo que ainda queremos ser. Venho desnudando minha alma, quebrando barreiras e soltando amarras, a cada dia mais me sinto livre para ser, usar, viver, gozar em, no, com romance. Então, vamos? Porque prontos nunca estaremos, mas podemos estar em sintonia, com vontade, querendo de fato e o romance nos espera. Vamos? Abrir as janelas, apurar as vistas, refinar a audição, sentir outros sabores, descobrir outros mundos além dos nossos, vamos além das aparências, das esquinas e reticencias. 

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Arme-desarme ou Pedacinhos de doce sortilégio

+ Em um dia chuvoso, enquanto esperava debaixo de uma árvore não sei bem o que ou quem, alguém veio em minha direção e me chamou a atenção, dizendo que eu poderia ficar resfriado, então estendeu o guarda-chuva, para que dividíssemos. Não me conhecia, não sabia quem eu era, o que tinha feito, porque estava ali, apenas quis me proteger da chuva. ++ Você pensa demais. É perigoso. Evito ao máximo fazer isso. +++ Catou as cinzas de cigarro com a ponta do dedo molhada de saliva e depois raspou na borda do cinzeiro. ++++ Hoje tudo parecia querer me tirar do prumo. Mas cantei, sorri e não levei a sério os percalços do caminho. +++++ Será que podemos buscar a memória do que não vivemos? Ou é mais fácil ignorarmos tudo que poderemos viver amanhã?


quarta-feira, 22 de abril de 2015

Evidências ou Peixe fora d’água

#Sobre todas os telhados das casas vizinhas e das outras todas desta cidade está escorrendo, sendo derramado em vértice-poema o choro da noite. Começou calmo, meio que sendo segurado, sei lá. Mas bastou o olhar mais direto da lua e tudo transbordou.
#Tenho a roupa limpa, acabara de tomar banho, passei aquela seiva que ganhei de aniversário, se não me engano, foi quando completei vinte e seis anos.
#O espelho está embaçado. Não. Todos os espelhos estão embaçados. Não consigo definir quem sou quando me olho. Muito mais que uma imagem invertida de mim. É como se estivesse derretendo do outro lado.
#Tapo a boca com a mão esquerda perante o espanto. Não vi nada demais, na verdade nada vi. É que o pensamento que me tomou foi tão inconsequente. Porque os pensamentos são assim, nos espantam e as vezes nos falas calar?

#Desnudado diante da guitarra espanhola, dancei livre, todos estavam ali, todos ouviam, mas só eu estava em pele, dançando. Alguém pareceu me notar, o olhar até tinha um ‘q’ de apreensão, como se quisesse me alertar. Mas eu sabia bem de mim. 

terça-feira, 31 de março de 2015

Eu água

Para se ler ouvindo 

Thalita Pertuzzatti ''Quando Fui Chuva'''



Escorri para dentro, saindo, pra fora, por inteiro, esmiuçando os espaços, lugares, corpo, pele, cabeça, pensamentos, o tempo, tudo, mas tudo quanto pude ser liquido para passar, ficar e seguir. Se de fato meu estilo é de seguir como pede toda água, cheguei onde tinha de chegar, lagos, rios, mares, oceanos, chuva, saliva, suor. Lembro-me pela imagem d’água de cair, solto, quando em cascatas sobre tua pele vivi a entrega da liberdade, do bater de frente e depois o contorno, e perceber que juntos iriamos mais longe. Todo gosto que escondi e então em mais perfeita dança consegui abrir as comportas e me deixar correr por planícies, inundando tudo, rompendo barreiras, barragens, mostrando como sou água. Na memória de tudo que existe, água. Do sangue que irriga, dos olhos que teimam em derramar sal, do beijo que mela, do gozo que faz suar e lambuzar a pele, do juntar, do lapidar, do viver, do liquido que me criou, do leite que me alimentou, em tudo quando sou: água. E se agora pareço sumir de tuas mãos ou quem sabe me deixas ser livre, não me perdes, apenas me ganha de tarde numa xícara de café ou de chá. Sinto me tocar quando no banho te lavo. Aqueço na taça de vinho e sorvemo-nos nas noites frias. Sempre, em tudo, no ar, no lavar as mãos ou o rosto, sou eu água.


Novos espaços, outros cantos


Cabeças Cortadas Universo de Retalhos - Parceria com minha irmã Danielle Freitas

Os que me olham, me sentem e me acomapanham

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