sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Olhares Obliquos

Remanescente de lugar qualquer, trazia em si uma certeza de coisas tantas que causava espanto. Mas o que mais causava incômodo era o fato de olhar sempre com ar de quem sabia mais, de quem desdenha, que não está nem aí, que poderia contestar ou maldizer tudo a qualquer momento, “... Quaquaraquaquá, quem riu? Quaquaraquaquá, fui eu...” e ela seguia com seus passos, seus desleixos, seus contextos e ria de qualquer um ou não ria, apenas olhava, mas olhava daquele jeito, por cima, de lado, longe, perto o suficiente para intimidar, causar tonteira absurda. Passando pela rua, lá estava ela, à janela, via tudo, não olhava para nada, de frente outras três se espremiam, não olhavam para ela, não olhavam para nada, mas também tudo viam. O dia passando, entre entrar e sair, passar e ficar, conversar, olhar as horas, sempre elas, imprecisas e parecendo não terem muito que fazer de mais original e importante, viam o dia dar lugar à noite e os diurnos aos noturnos, “... E agora cadê, cadê você? Cadê que eu não vejo mais, cadê? Pois é, quem te viu e quem te vê...”, e depois uma saindo, depois a outra, logo em seguida as duas restantes, e várias outras que não se via, mas que olhavam, viam e mesmo que não restasse mais a presença física nas janelas, seus olhares oblíquos ainda olhavam para quem passasse ou parasse.


* Trabalho em carvão de Carlos Gregório de Souza

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O cheiro do mijo

Corri, corri, corri, percebi que ainda estava perto e todos me olhavam, cochichavam coisas que eu não conseguia entender, a moréia dentuça me espreitando – se correr o bicho pega e se ficar o bicho come – a íngua doendo pra cacete, a espada enferrujada não ajudava pelo contrário, só pesava nas costas e eu corria, corria, corria, nada de água fresca, um calor imenso, uma sede louca consumindo meus pensamentos. Passei por um lugar que era um misto de feio e interessante. O sorriso daquele cara era falso, desafiador e queria desmascará-lo, mas não podia parar, a moréia continuava me seguindo, com seus dentes afiados, brilhando sob a luz do sol, a igreja com seu sino das doze horas, a fome roncando na barriga, a correria não cessava, o desespero aumentando, todos olhando e ninguém estendendo a mão, só cochichando, cochichando coisas absurdas que eu não entendia, por fim cheguei a beira de um penhasco - ou morria em baixo sobre as pedras ou morria em cima pelos dentes do bicho solto e feroz que nadava no ar. Decidi pular, sempre tive vontade de pular no nada e nadar, nadar, nadar. Fechei os olhos e me joguei, sem medo, porque eu tinha mais medo do lugar estranho e interessante, dos cochichos do povo, do sino do meio dia, então fui caindo, devagar, sem pressa e quando parecia que não sobraria mais que pedaços de mim, comecei a flutuar, lindo, leve, belo, mas quando dei por mim, despertava, havia dormido bêbado na calçada e o cheiro do mijo invadiu definitivo as minhas narinas. Aos pouco comecei a redobrar as forças e restabelecer contato com os pensamentos e lembranças da noite anterior. O sol quase a pino, quase ao ponto das badaladas do sino e tudo foi clareando, o trabalho, a saída dele às dezoito horas em ponto, a cervejinha com os amigos, a gata de vestido verde, o amigo dela de olhos verdes, os amigos indo embora, o casal me olhando, eu indo ao banheiro, o cheiro de mijo do banheiro, o rapaz de belos olhos amigo da gata urinando ao meu lado, puxando conversa, depois um apartamento ali perto e muita vodka, muito uísque, algumas cervejas que eu não conhecia e por fim, já na cama o resto de uma garrafa de vinho e tudo foi muito louco, muito intenso, e agora esse cheiro que me enjoa e me excita, minha cabeça rodando e doendo, alguns transeuntes que passam e me olham, falam alguma coisa meio que cochichando e a estátua de um gato selvagem no portão em minha frente, era ele a moréia que me assustava. Estou a atrasado para o trabalho, aliás que exploda aquela repartição, quero minha cama, quero seguir viagem, voando, deslizando num ar cheio de cheiros, quero quem sabe tirar a máscara daquele homem sorridente falso ao extremo falastrão do nada e depois curtir a leveza, o cansaço, a cama, o sonho.

Parte de mim - o que vira escrita...

Os que me olham, me sentem e me acomapanham

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