terça-feira, 31 de março de 2015

Eu água

Para se ler ouvindo 

Thalita Pertuzzatti ''Quando Fui Chuva'''



Escorri para dentro, saindo, pra fora, por inteiro, esmiuçando os espaços, lugares, corpo, pele, cabeça, pensamentos, o tempo, tudo, mas tudo quanto pude ser liquido para passar, ficar e seguir. Se de fato meu estilo é de seguir como pede toda água, cheguei onde tinha de chegar, lagos, rios, mares, oceanos, chuva, saliva, suor. Lembro-me pela imagem d’água de cair, solto, quando em cascatas sobre tua pele vivi a entrega da liberdade, do bater de frente e depois o contorno, e perceber que juntos iriamos mais longe. Todo gosto que escondi e então em mais perfeita dança consegui abrir as comportas e me deixar correr por planícies, inundando tudo, rompendo barreiras, barragens, mostrando como sou água. Na memória de tudo que existe, água. Do sangue que irriga, dos olhos que teimam em derramar sal, do beijo que mela, do gozo que faz suar e lambuzar a pele, do juntar, do lapidar, do viver, do liquido que me criou, do leite que me alimentou, em tudo quando sou: água. E se agora pareço sumir de tuas mãos ou quem sabe me deixas ser livre, não me perdes, apenas me ganha de tarde numa xícara de café ou de chá. Sinto me tocar quando no banho te lavo. Aqueço na taça de vinho e sorvemo-nos nas noites frias. Sempre, em tudo, no ar, no lavar as mãos ou o rosto, sou eu água.


sábado, 6 de dezembro de 2014

Chove aqui dentro e lá fora ou Olhos de chuva em cima de mim

Janeiro está perto. As moções podem chegar a qualquer momento. Saiba que nada é por acaso. Absolutamente nada. A música caribenha que toca faz mexer uma parte de mim que estava esquecida. Como é bom dançar. É antigo o ato de dançar e é animalesco. Aquela sensação de ter se apaixonado a primeira vista e de ter deixado o momento passar. O vazio que me deixa. Por quê? Por quem? O silêncio que incomoda. Porque muito se diz nesse espaço. O teto de zinco está furado. Agora que começa a chover lá fora. Daqui ha pouco as gotas molharão tudo. Mas a questão é justamente a sobreposição das águas. A mão na boca, lambendo os dedos, é tão bom comer aquilo que você gosta. Mas comer com as mãos. Lambuzar. Já se infiltra. Escorre pelas paredes. Pelo menos a parte em que está a rede não molha e posso ficar ali, balançando. A dor e o choro. A chuva. O sal faz boiar. Mas não há água suficiente para isso. Engole o choro, levando a mão na boca com o capitão de arroz e carne seca. Uma pena que vai estragar os quadros. Resgatei-os do lixo. Mas ficaram tão bem onde estão. Não é bem o céu tudo isso, mas tem chuva. Rio. Ainda não perdi a capacidade de rir de mim, das besteiras todas que penso e falo para as paredes. Só. E o vazio que me deixa. Se amanhã fizer sol trato de consertar esse telhado. Enquanto isso, balanço. A música porto-riquenha não para de tocar. Ou é caribenha? Não importa. Agora já não importam as definições. Se é chuva ou choro, no fim tudo está molhado. E pronto. E ponto. 

Parte de mim - o que vira escrita...

Os que me olham, me sentem e me acomapanham

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