domingo, 14 de junho de 2009

Uma imagem viva

Enquanto tomo uma xícara de café e olho pela janela.
Um sentimento esperançoso vindo com o vento.
Existia um olhar dentro do nada. Não, não era dentro do nada, não era o nada, era um contexto fluido de qualquer coisa, de incompreensão minha, por isso disse o nada. Então eu observei, porque aquele olhar realmente me fez indagar tanta coisa, tantos mistérios ocultos, que eu simplesmente observava. A imobilidade do corpo e mesmo assim, sua constante expressão de vida, de leveza. A senhora depois de um tempo acendeu um cigarro. E fumou. Mas fumou com uma vontade e paciência, que me orgulhei de ver. Aquilo mexeu comigo, mas mexeu tanto, que acendi um cigarro também. Enquanto ela fumava de lá, paciente, lânguida, eu fumava de cá, observador. Ela riu quando um cachorro passou. Ela fitou o sabiá que cantava no poste defronte de sua casa. Ela tragava, demorava um pouco e soltava aquela fumaça. E eu besta, olhando-a, crente na sua severidade, na sua insensatez. Via naquela senhora uma vida inteira vivida de forma feliz. Não sei porque, mas era a impressão que ela me passava. Uma criança passou, ela falou algo que não deu para ouvir daqui, mas a criança sorriu e depois correu. Aquela mulher tinha algo mágico, algo que me prendeu. Quando ela terminou seu cigarro, pegou a vassoura encostada na mureta e começou a varrer. Deu as costas para o mundo e para mim. Demorei mais um tanto observando-a. Mas eu já não cabia mais em sua vida, não pertencia mais ao seu mundo, não podia mais estar em sua fluidez de alguma coisa. Algo se quebrou ou eu me perdi. Mas pude ser simples o suficiente para observar o simples.

4 comentários:

tossan disse...

Belo texto, a música com esta nova roupagem também. Abraço

De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.

Fernando Sabino

fabio ferreira disse...

lindo!
saudade

Germano Xavier disse...

Sou daqueles que ainda acha que ver o simples é mais difícil que observar o complexo.

Talvez o segredo da vida mais valiosa.

Abraço forte, Plínio.
Sigamos...

Luiz Calcagno disse...

Deu vontade de fumar.

Novos espaços, outros cantos


Cabeças Cortadas Universo de Retalhos - Parceria com minha irmã Danielle Freitas

Parte de mim - o que vira escrita...

Os que me olham, me sentem e me acomapanham

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