Sinto-me como se todos achassem
que sou uma bomba – favor manusear com cuidado. Tenho na sala um abajur em
forma de disco voador. Tenho a sensação de que ele voa perdido em minha sala,
procurando o caminho de volta, para depois me levar daqui. Alguns anos se
passaram rasteiros e vejo o espelho me afrontar, mas de uma forma tão ousada,
como uma serpente aguardando a hora certa e a qualquer momento o bote,
certeiro, que me fará sufocar com o veneno mais imoral que existe. Olho para
tudo com uma precisão de atirador, aqui nada muda, as flores só retiro quando
estão totalmente mortas. Penso em mudar as cores da parede, mas o que precisa
realmente ser alterado está tão incrustado. É como um peso que é impossível de
levantar. Tem dias que os equinos galopeiam em meu telhado, engraçado como as
asas surgem e desaparecem – enquanto alados, acompanham em um teto aparente nos
passos que dou fora de casa, quando no chão, eles brincam de correr em
liberdade sobre o barro queimado de minhas telhas. Faz muito que tento
adestrá-los, mas são selvagens por demais e não consigo selar. Canto aboios
tristonhos e nada. Canto aboios felizes e nada. Em silêncio e nada. E de tanto
nadar cheguei a lugares incrivelmente distantes, onde nem mesmo o disco voador
me levou. As vezes cruzo olhares com pessoas que são afins, penso que me
reconhecem, que sabem do meu óvni disfarçado de abajur, mas creio que tem medo
de se declararem e eu também. Em dias de chuva, pássaros invadem em sons minha
janela, cantam tão loucamente felizes e me instauram o sentimento tão jocoso.
Em dias de chuva, sinto que a vontade de encontrar outros extraterrestres se
fortalece, é como se as gotas que caem interligasse a energia cósmica que nos
une. Mas tem muito de planeta Terra que nos prende, gravidade, medo, receio,
angustias. Sinto que preciso partir ou me tornarei tão humano quanto um humano.
Os cavalos chegaram, preciso por a sela ou partir montado em pelo.
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