segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Colar de sentimentos no pescoço do tempo

Algumas vezes penso que não existe nada, que tudo não passa de uma vertigem, um desgosto, um vento morno e que depois tudo passará, perceberemos que o conto de fadas acabou sem final feliz. Mas quando no justo tempo em que divago nessas loucuras, percebo que existe muito mais que desatinos. Existe uma profusão de coisas, fatos, pessoas, sentimentos. Quando do fim de tarde e os últimos raios de sol se esforçam para tocar a janela e inundar de luz o quarto quase escuro, percebo tanta poeira pairando no ar, vejo as cores refletidas no cristal, os lírios sobre a mesa exalando um perfume único. Lembro do pão com mortadela que comi no trabalho na hora do almoço, recordo aquele dia em que me vi apaixonado e já estava há tempo e ainda não tinha caído em si. E pensar que um dia eu tive trinta anos e dezessete e doze. Tanto eu fiz, tanto deixei de fazer. Lembrei da música: “... amanhã já é janeiro para quem partiu em agosto...” e lembrei que eu soltava pipas e arraias, corria que batia os pés na bunda para pegar as pipas dos meninos quando cortávamos com linha temperada. Tudo vai se indo e me vindo à saudade do sertão, da aridez, do sol quente, lábios ressecados, o cheiro da terra sendo molhando quando chove, “... doce viola, arrasta o meu coração, me leva para o sertão, me leva...”, e passear a pé, as praças com suas árvores floridas quando chegar à primavera, os periquitos, os cardeais, galos-de-campina, canários da terra, todos cantando em maestria da chuva. Livres, soltos, o meu eu consolado, afoito sim, mas consolado pelos pássaros, e depois o cair da noite estrelado, a brisa leve, o amanhecer orvalhado. Percebo que quando me sinto tão afobado, preocupado, pensar no sertão me liberta, faz com que eu enfeite o destino, omita para o tempo que o meu tempo não passou e ainda estou lá, menino, leve “... uma jangada à deriva céu aberto, leva os corações despertos a sonhar com terras livres...” sem saber que aos trinta e tantos anos existe um vazio tão grande que as recordações só amenizam, mas não preenchem.

Trechos das músicas:

Minha rede – Roque Ferreira

Doce viola – Jaime Alem

Estrela – Vander Lee

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