quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Temporada de caça


Livre inspiração na canção
Temporada fora de mim
de Hélio Flanders

 

 

Que foi feito de mim?

Realidade ou delírio?

Respiro. Acendo um cigarro.

Tento o diálogo.

O outro fala como se fosse eu.

Invertido.

Fala enquanto pergunto.

Não consigo entender o que diz.

Acabo mais agoniado.

Penso em sair, embebedar, ver gente.

Com um murro quebro o espelho.

Vejo milhares de mim em cacos pelo chão.

Todos trazem um grito

São os sentimentos desesperados

Começo a catar...

Percebo que não posso jogar fora quem sou e reconheço

Meu sangue escorre sobre o pedacinho do medo

Deixo tudo como está

Enrolo minha mão na toalha branca

Quando abrando os pensamentos

Volto para a cama

Percebo que quem via era impressão

Não existe sangue

Mas existe dor

Estar só me assusta

Acendo a luz

Fantasmas não gostam de claridade

Tudo não passa de um sonho que não é.

Tudo isso me cansou.

Preciso dormir.

Amanhã será outro dia.

Recomeço.

sábado, 3 de setembro de 2016

da fresta. da porta. do tamanho que tem que ser.


anyway...

 

 

Estou com a nítida impressão de que irá chover. Está faltando mais pouco do que tudo. Esqueci meu guarda-chuva em algum lugar. Mas também como não haveria de esquecer? Tem coisas que nasceram para serem esquecidas. Mas estava falando do pouco que falta diante de tudo que já se tem. A calmaria que sempre busquei. Assim estava por aqui. Mas tu vieste balançar meu barraco, tirar tudo do lugar e me mostrar que tudo não passava de uma aparência. Porque diacho apareceste? Diz! Tu chegaste com essa turbulência toda. Contigo, atrás, no meio de ti, vento. Essa ventania saindo de tua boca. A energia do contraste. Espalhaste tua farofa, mexeu com meu axé e ainda querendo ir mais além. Tudo ficou por um triz. Vieste instaurar o caos. Enquanto pensava que meu couro era duro, que nada seria capaz de me tirar do prumo, que de fato muito pouco faltava perante o todo-tudo. E esse tiquinho não mexia comigo, não me ouriçava. E foi por essa fresta que tu adentraste. Um ratinho, um serzinho minúsculo, que não metia medo em nada e nem ninguém. E foi na tentativa de te matar que me mordeste o calcanhar. Transmitiu a erupção, maremoto, o espasmo, febre, delírio. Não fui e não sou sem convicções. Longe disso. Mas é que tua força se fez. E tua força dorme junto com a paixão. Foi esse veneno que a princípio me fez desmoronar. Depois que meu sangue se transformou em soro, que meu corpo percebeu que não podia e nem devia lutar. E uma vez entregue, ficou evidente que falta muito de tudo e pouco é o tempo. Mas do pouco espaço de tempo que tenho, quero sair por aí em meio a tua ventania. Afinal, toda essa força que o amor tem, não tem como prender.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016


enGRAVidaDO

 

Espelhos não mostram quem sou.

Essa imagem invertida não me representa.

 Não a reconheço.

 Sou vidro. Vazio e leve. Grave. Engravidado.

 Vejo-me do outro lado.

Pronto para me esbaldar. E ponto.

 

 

Tenho espelhos por toda casa. E tenho vidros também. Já não me olho em espelhos. Corro deles, fujo como dizem que o diabo foge da cruz. Não é medo. É mais uma questão de não reconhecimento. Por isso ando preferindo vidros. Por isso cobri todos os espelhos. Não quis botar fora. Pode ser que em algum momento queira ver a imagem que aparece invertida. Mas com os vidros me entendo bem. Apenas uma leve sombra reflete. Mas tudo o mais é vazio, é transparente, no máximo se vê coisas dentro. Mas coisas que não são de dentro de mim. Na cristaleira por exemplo, vejo todos os cristais, taças, xícaras, copos de uísque, compoteiras. Mas eu não. Eu vazio, livre para me preencher de tudo que for escolha minha, apto para escrever neste papel em branco, uma alma limpa como uma tela onde posso tratar tintas e texturas ao meu modo. Mas espelhos não. Eles mostram uma criatura feita pelas escolhas, impressões, desejos, moldes de outras pessoas. Não tem minha impressão digital, não tem meu sangue, meu suor, meus sustos, intempéries, gritos de basta, silêncios prazerosos. Não tem nem uma fissura minha. Então aqui me faço, vidro. Grave. Engravidado.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Em se deixar levar e lavar


Para se ler ouvindo Romeo nas vozes de

Thiago Pethit e Hélio Flanders

 
Meio que sem jeito tudo começou. Depois parecia ir se encaixando de forma leve, mas precisa. Não minto em dizer que não dava nada. Juro! Não acreditava que fosse ir mais, além. Talvez aí esteja o segredo. Verdade seja dita. Creio que você também não apostava tanto. Fomos tão desleixados, despreocupados. Isso! A palavra correta é essa: despreocupados. Eu não liguei porque achava que seria precoce e afobado. Você não ligou. Não sei porque não ligou, mas deveria ter o sentido de espera, de saber qual o próximo passo que daria. E do nada nos encontramos no bar. Tenho tudo como uma cena fílmica – ao passo que eu chegava ao balcão para uma primeira bebida na noite, você voltava do banheiro, ajeitando os cabelos desgrenhados. Nos vimos, rimos com os olhos primeiramente, para depois esboçar nos lábios o prazer do encontro. Cumprimentamo-nos primeiro como amigos, mas aquele abraço me veio tão protetor. Seu cheiro me invadiu e causou um frenesi. Um instante eterno. Ali mesmo justificamos de forma tola nossas ausências, desprendendo desculpas esfarrapadas. Esquecemos por certo momento que estávamos ali, cada um com seus amigos. Ao me oferecer uma bebida acabou me lembrando que tinha ido ali justamente para buscar uma. Ri, meio que sem jeito, por me ver perdido e preso aos seus encantos. Falamos ao mesmo tempo num convite para nos juntarmos a mesa e companhia que estávamos. Rimos juntos. Mas rimos mesmo e eu olhava seus lábios e dentes e me sobrava desejo de te beijar. No fundo no fundo, eu queria ficar só com você ali ou ir para qualquer outro lugar, desde que fossemos somente eu e você. E mais uma vez você me surpreendeu. Parecia ler meus pensamentos, meus olhos, minha alma. E então largou aquelas palavras como quem solta fogos de artificio – vamos há algum lugar? Só nós dois? – estremeci, ardi, ri um riso bobo de entrega. Paguei as bebidas. E fui em direção aos meus amigos. Disse que estava indo. Eles não precisavam de justificativas, primeiro por serem amigos verdadeiros e depois, por terem visto a forma com que conversávamos. Saímos dali ainda sem saber para onde iriamos, mas isso pouco importava e ainda hoje pouco me importa para onde vamos. Afinal, em estar contigo sinto que podemos construir qualquer coisa. Quando entramos no taxi, olhamo-nos numa indagação para onde deveríamos ir. Os teus olhos quase fechavam no sorriso farto e isso me encantava profundamente e encanta até hoje. Roubou-me um beijo. Você deu o seu endereço e partimos. Sentia-me numa montanha russa, tamanho o frenesi em meu estômago. Uma eternidade se fez dali até sua casa. Conversávamos com o intuito de fazer o carro ir mais rápido. Sabíamos que nosso vulcão estava prestes a explodir. Sua mão em minha perna. Meu braço em torno ao seu pescoço. Dali em diante é tudo que eu rezava e pedia a Deus. Creio que silenciosamente você agradecia. Nesse exato momento que volto a esse dia, vejo você com sua mania de enrolar os cabelos com as pontas dos dedos e ainda fico encantado como da primeira vez. Tanto tempo se passou e ainda agora tenho seu suor me lavando a pele. Deito minha cabeça em teu peito e sinto seu coração me irrigando de amor. Você se reclina e sela seus lábios em minha testa. Deixa ali a marca dos lábios que tanto amo ver sorrir. Rio e do nada você diz – eu também te amo. Você não perdeu o poder de me ler e isso me faz muito feliz.
 
Plínio Gomes

Novos espaços, outros cantos


Cabeças Cortadas Universo de Retalhos - Parceria com minha irmã Danielle Freitas

Parte de mim - o que vira escrita...

Os que me olham, me sentem e me acomapanham

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