segunda-feira, 4 de maio de 2009

O amor e a saudade.

Um beijo leve e adocicado na lembrança.
Um tapa forte na cabeça da tranquilidade.
Um virar de costas ao choro dos outros.
Um abraço apertado e confortante nos meus sentimentos.
*****
Engraçado o tempo! A gente se acostuma com tanta coisa, com os sofrimentos, com as agonias, com os medos, com as chacinas, as filas nos hospitais, as mortes na favela, acostumamos com tudo, mesmo que não percebamos, sempre acabamos nos acostumando a tudo. O tempo faz as feridas ficarem menos abertas, as vezes até esquecemos por instantes, horas ou dias. Mas me peguei pensando na saudade que tenho, que sinto, que horas está agonizante, horas calma, mas sempre a mesma saudade. Tento não ficar triste, não chorar, mas são anos segurando um choro, segurando um grito, uma loucura qualquer que brote fácil e saia de mim, como suor, como lágrima ou como uma voz mesmo, ecoada, largada, cortante. É assim, justamente assim que me sinto, envazado, polido, mastigado pelo ranger dos dentes de outros, lavado pelo choro dos outros, o forte as vistas de outros tantos. Cansei. Segurei-me por todo esse tempo. Mas agora não dá mais, agora é meu tempo de estourar, de soltar, jogar e jorrar essa lava que queimou e queima dentro de mim. Preciso de espaço, de tempo, de mim mesmo, de amor e de sentir essa saudade como ela é: minha. Não com o também, mas minha saudade. Porque meu chão se abriu e engoliu parte de mim, soterrou meu norte, minha fuga, meu horizonte. Entendo muito as diversas razões do partir, mas sinto falta, sinto saudade desse amor que me lançou nos braços do mundo, sinto saudade de sua vivacidade, de suas viagens musicadas, de seus sonhos não realizados e escondidos no fundo de si. Sinto saudade de mim, porque me fui junto, porque deixei de ser parte de mim quando o chão se abriu e me consumiu e me decepou os pensamentos, as pernas, os braços e os sentidos todos. O amor e a saudade são inseparáveis, porque um dia o amor se vai para longe e nos resta a bendita saudade, aquela que faz-nos esquecer as partes ruins do todo e sempre sorrir de saudade das coisas boas. Mas a minha saudade é completa, porque muito segurei dentro de mim o que sentia, mas agora explodo em dizer que sinto saudade de tudo, dos castigos, das surras, das brigas, dos abraços, das partidas de buraco, dos cigarros fumados juntos, das idas a roça, de tudo minha mãe eu sinto saudade em você, das faxinas de sábado, dos discos de Barbra, Bernard, Piaf, Enya, de tudo em você eu sinto falta, da forma como me pareço contigo, dos mistérios ocultos no seu olhar e da clareza deles em me dizer outras tantas coisas. Sinto saudade das nossas ultimas conversas, das quais eu poderia ter-lhe dito mais e mais coisas, inclusive que eu te amava e te amo, porque o tempo pode me levar tudo, mas jamais me levará esse sentimento inteiro e completo de saudade de amar você presente, ausente e futuramente dentro de mim. Desculpe-me pelo filho que fui e sou, mas sou quem sou porque sempre acreditei na liberdade de ser, de estar, viver o mundo que eu sempre ouvi você falar e cantar. Sabe, quando ouço certas musicas lembro-me claramente das lágrimas que corriam de seus olhos, do sorriso de canto de boca. Lembro de tantas coisas. Lembro-me de ti. Sempre.
Um grande beijo de filho que aqui ficou, desse que lhe ama muito.

11 comentários:

Neo disse...

Esta saudade é exatamente isso... o chão que se abre e engole parte da gente..

Ficção ou realidade, te entendi perfeitamente.

Grande abraço!


Neo

Avassaladora disse...

Forte e comovente!
Quantas vezes nos sentimos assim, e não conseguimos extravasar todo o sentimento que vai na alma!


Beijos e carinhos!

Danielle Freitas disse...

Lágrimas rolam pela minha face por tudo que li, pelas lembranças que me invadiram, por hoje, especialmente hoje e por todos os dias que virão.
Saudades eternas dos braços gigantes que nos acolheram, do ventre que nos recebeu com todo seu amor.

Um forte abraço!

Afobório. disse...

olá.

acho que a saudade é um vento manso, que não tem dó pressa,
e essa peça, é a vida quem prega, não deixa nada, só oi.
e não vai junto de quem se foi.

muito bonito. e seja bem aos time dos problogers.

sorte e luz.

A Senhora disse...

Eu sinto falta de uma certa avó, que escondia maçã na bolsa para me dar, e só para mim. Do seu colo que me aconchegava para me contar a história que eu pedia pela enésima vez. Dos chocolates que me dava escondido. De quando ela cantava O Guarani (comprei toda a obra em CD por causa dela, anos depois).
Isso é mais que saudade - é tatuagem.

beijinhos, menino. Adorei ter vindo retribuir a visita.

Walter disse...

Se quando falamos ou escrevemos as palavras ficam impressas no cosmos, lá ficaram, emolduradas por esse lindo sentimento que os une e a saudade.
Ah saudade...

Annanda Galvão disse...

Estou sem palavras, encontrei seu blog e não consigo parar de ler...
sobre a saudade...
dói, tira o chão, mas uma hora ela vem mais suave...pelo menos eu acho...
lindo isso tudo!
bjbj

nilma disse...

Não consigo me expressar nesse momento, mas sei dizer que é exatamente assim a saudade que sinto, não só hj, mas tantos outros dias. Queria te abraçar agora te envolver em meus braços e passar horas assim.
Te amo.

alineol disse...

Comovente.... força para lidar com esse sentimento maluco que é o amor....

Danúbio disse...

Poucas coisas nessa vida são justas.
Não é justo eu chorar tanto assim agora.
Não é justo que alguém sofra tanto assim a falta de outro.
Não é justo que fiquemos sozinhos.
E eu só queria mesmo te dar um abraço, te dizer que amanhã tudo vai ser diferente, que vai haver sol, que não mais haverá dor. Queria mesmo, queria compartilhar tuas lágrimas, te falar das minhas, aí tudo podia melhorar quem sabe. Queria mesmo só te abraçar.
Também não é justo que faça isso comigo.

Nazara disse...

Ouvi sua voz a ler suas palavras, também ouvi a de Dani e a de Mainha. No ouvir escutei lágrimas. Não somente as minhas, ao ler tive impressão de que o tempo passa, mas meu amor, minha saudade, meus sustos, minha força de ser alguém... ainda vive aqui. Aprendi com alguém cujo o nome nós confundíamos com Poderosa, João Freitas, Grandona, Dinda. Eu amo lembrar de tudo, mesmo doendo não tê-los novamente. Eu amo você primo, e eu gosto de ver você descobrir o que tem lá fora, lá bem longe daquele buraco o qual você citou.

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