quinta-feira, 26 de março de 2009

A feminista

*Bom, voltei a escrever contos ultimamente, mas é a primeira vez que escrevo com o eu lírico feminino. Um pouco ardente o texto, mas não o vejo de forma vulgar. Em fim, espero os comentários. Abraço perfumado.*




*****
A feminista


Esse corredor me assusta. Ele sabe que não gosto de vir aqui. Essas paredes sujas e gastas pelo tempo, a pouca luz que entra por esses vitrais, a fumaça que sempre paira vinda do lixão ao lado, os berros dos vizinhos que volta e meia ressoam. Não gosto desse lugar. O corrimão e a escada de madeira que os cupins já amoleceram de tanto furar e que ao subir me sinto tonta. Estou há pelo menos nove metros da porta de seu apartamento. Sei que ele deve ter tentado dar um jeito, mas continuará uma bagunça com cheiro de fumaça de lixo e mofo.

Daqui já ouço Ray Charles que toca na sua vitrola velha, acho que é a única coisa de valor que ele tem, além da gaita deixada de herança pelo pai e que ele arranha nesse momento, tentando acompanhar a música. Posso até supor que ele está sentado na poltrona de tafetá marrom que já esqueceu a cor que tinha de tanto o tempo bater sobre ela. Um copo de conhaque ao lado do cinzeiro cheio de bitucas. Já deve ter fumado um baseado para relaxar, sempre fica nervoso quando marca comigo.

Faz uns seis meses que não nos falamos e não venho até aqui. Hoje coloquei esse vestido preto por cima de meu corpo nu e ainda mais macio pelo extrato de pêssego, mas como faz frio nessa cidade, pus uma echarpe verde pântano e um trent coat grafite. Ele gosta de me desnudar, mas sempre pragueja calcinhas, sutiãs e espartilhos, prefere a facilidade de escorrer o vestido.

Estou a sua porta agora, retocando o batom carmim, única maquiagem que uso, realça meus lábios carnudos e as maças do meu rosto. São anos de encontros escondidos. Fui eu quem quis assim, afinal encabeçar o movimento feminista, viver viajando de norte a sul desse país e para fora dele, não estaria de acordo aos preceitos se convivesse com um homem rude como esse. Mas gosto dele, da sua barba sempre por fazer, a forma como mete a mão por baixo do meu vestido, como me aperta contra a parede, como consegue me dizer tudo sem pronunciar uma palavra se quer, o seu hálito de conhaque, cigarro e maconha, sua saliva quente, a tatuagem do Índio Cherokee no seu braço esquerdo, que sempre parece olhar para mim quando estamos nos momentos mais íntimos.

Estou em frente à porta há alguns minutos, estou tensa, bato três vezes com os nódulos dos dedos. Ouço o arrastar de seus coturnos desamarrados, ouço ele por o copo sobre a mesa, sinto uma gota de suor escorrer por minas nádegas, sinto o umedecer de minhas entranhas, como ele consegue me fazer tudo isso, ele abre a porta de cabeça baixa, me olha coçando o queixo. Sei que a vontade dele é me agarrar ali mesmo no corredor, mas entro sem dizer nada, tirando as luvas das mãos, primeiro a esquerda, depois a direita, paro logo depois de passar por ele e vou desamarrando o trent coat, e sinto suas narinas se encherem do meu ar passante. Ele fecha a porta e me oferece um conhaque, eu aceito, preciso molhar minha garganta. Enquanto ele põe a bebida num copo de extrato de tomate, olho ao redor para desvendar a passagem de alguma piranha por ali. Como imaginara estava com um aspecto de arrumação, mas muito mais do que eu poderia supor. Ele tem outra mulher! Não e cabível que aquele muquifo estivesse com boa aparecia só por uma arrumação dele. Quando me trouxe o copo, tinha um sorriso de canto de boca, como se soubesse o que eu pensava, quando peguei o copo nossas mãos se tocaram e tudo parou de girar, eu parei de pensar, era isso que ele queria, era o que ele precisava para se aproximar de meu corpo.

Enquanto tomava o primeiro gole e talvez o último, ele beijava meu pescoço e arrepios sucessivos me deixavam mais ouriçada. Eu queria lhe perguntar sobre a outra mulher que arrumara seu quarto e sala, mas uma mão já alisava meu sexo e um seio estava pra fora do vestido e ele mordendo levemente o bico.

- Estava com saudade.

Ele sussurrou isso ou estou sonhando? Podia jurar que ouvi isso e mesmo não tendo certeza respondo: - Eu também meu querido.

Não devia ter dito, ele vai pensar que estou fraca, que poderá fazer qualquer coisa comigo. Mas eu já disse, não tem como voltar atrás. Já sentia meu corpo nu e os pêlos do seu peito roçando minha barriga. Eu amo esse homem, o desejo tanto, quero-o tanto junto de mim, dentro de mim. Quero tirá-lo dessa vida sem nexo, dessa sujeira toda. Mas e as mulheres que se espelham em mim? O que elas irão pensar, dizer?

Seu membro em riste encostado na minha coxa, sua língua numa destreza sem tamanho. Ah! Ele me enlouquece. Estou sobre a mesa e ele entre as minhas pernas, me conduzindo e não me sinto inferior e nem menos feminina. Não posso continuar minha vida sem esse homem e nem ele pode viver sem mim. Como é perfeito, como é bom tê-lo em mim.
****
Por Plínio Gomes

5 comentários:

Luiz Calcagno disse...

Bela maneira de descrever o ambiente, meu caro.

Afobório. disse...

olá.

parabéns pela descrição, contos assim, com fumaça, pútridos, exalam até mesmo o odor.
´
até agora, esse foi que mais gostei.
muito bom mesmo.

sorte e luz.

Roberta Albano disse...

bem, achei a história meio complexa mas o jeito como eles ignoram toda história além e todos os detalhes para estarem juntos torna aquilo não vulgar. Torna muioto mais do que sexo

Danielle Freitas disse...

Os detalhes faz vc sentir q estava escondido em algum lugar, vendo toda a hitória.

Avassaladora disse...

Zingador, li e voltei ao incio e li novamnete!
Seu texto exala cheiro de sexo... de tesão, de desejo!
Em algum momento sua narrativa me lembrou Eça de Queiroz em " O Primo Basílio".
A descrição do local... incrível!

Excelente!
Adorei...
Nos brinde com mais contos assim...rs

Beijo avassalador!

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