sábado, 2 de outubro de 2010

Danado com o mundo - Do egoísmo e do heroísmo.

Graças a Deus ela não falou. Por mais que eu a ame, muito me custa ouvir sua teorias absurdas sobre o consciente, o inconsciente, sobre os sonhos, sobre os signos e os sinais. A mania que ela tem de fazer previsões não confirmadas, de levantar o rosto para sentir o vento e dizer que vai chover, de ler Santo Agostinho e o Apocalipse e evacuar tramas loucas sobre humanos que não são humanos e sim seres de outros planetas e que a qualquer momento irão mostrar suas caras, caretas e tarjas pretas e o mundo entrará em tempos de cólera e sofreguidão. Amo demais essa mulher, mas gostaria que ela fosse normal, que me fosse uma Amélia, que me escrevesse cartas de paixão e saudade, mas ela parece não se apegar a nada, não crer que eu me apaixonei e que muito mais gostaria de fazer do que divagar sobre o som da chuva, a poluição do planeta e o canto das baleias. Ela diz que escorpião e leão fazem loucuras na cama e logo eu que nem sabia que era leonino. Mas se ela sabe disso porque não se entrega de vez para mim? Não creio que nada conste em seu ser que não a deixe apegada a mim, pois são anos a fio, são diversas noites - ela consumindo xícaras e mais xícaras de chá alucinógeno e eu taças e mais taças de vinho. A minha persistência às vezes se cansa, mas quando ela para de falar e me olha com olhos de volúpia enquanto enrola uma mecha de cabelos, não caibo em mim, o meu apetite de fazer amor dilata minhas veias, irriga meu cérebro. Corro para cima, ela faz doce, fico mais louco, ela me afasta com suas pernas grandes, reluto, ela me empurra, caio, ela abre as pernas, sinto seu cheiro, ela ri, afogo-me, ela delira, arranho com minha barba, ela grita, nos entrelaçamos. Penso que tudo vai ser diferente, que ela não vai sair correndo depois de tudo, que vamos continuar deitados no chão da sala, que ela permanecerá deitada em meu peito. Mas ela torna a falar dos signos, que escorpiões matam depois da cópula, que ela tem medo do que possa fazer comigo, ela chora, fico calado, ela soluça, tento confortá-la, ela levanta-se, peço que fique, ela diz que é noite de lua nova, imploro que não se vista, ela vira o ultimo gole de chá, digo que a amo, ela me olha calada, repito que a amo, ela caminha até a porta, levanto e vou ao seu encontro, ela me dá um beijo no rosto e fala que está partindo para outro mundo, peço que não vá, ela bate a porta.

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