sábado, 29 de maio de 2010

Aquele jeito lobo tolo de ser (Fêmea)



Como sentimento de pele, aquele que nos governa mais que qualquer religião, chegou instantâneo. Sabido de si sorveu meus pensamentos mais estranhos e me instaurou um tempo só seu, inusitado, mas só seu. “... Quando ele chegou, o estranho rapaz, seu olhar estrangeiro olhou para mim...”. Queria partir ao acaso, fugir, mas estava presa. O meu ser livre não tinha força de ir, porque não queria, porque existia um visgo forte, algo compensador, inevitavelmente ardente. “... Eu nunca tinha ouvido a fala do amor, o frio o calor, eu logo entendi que quando o rapaz, seu olhar estrangeiro olhou para mim...”. Lama profunda, aquela movediça que nos toma o corpo e a alma quer fugir, mas de alguma forma, estar protegida do mundo é mais importante que morrer ali. Não carecia me dizer nada, porque nossas peles delineavam textos imensos num papel parede sala quarto cozinha banheiro mundo vida que nada mais precisava ser dito. “... Seu olhar estrangeiro falava uma língua que eu logo entendi, senti no meu corpo uma coisa tão louca, que nunca senti...”. Por nada mais que uma noite, mas um universo inteiro cabia entre estalos e suores e a mesma lua que me deixava ouriçada agora azulava o chão e a brisa orvalhava o tempo lá fora. Tanta besteira nos prende a mediocridade e eu tão louca, tão dada aos caprichos libertinos, deixava-me levar. “... Ele olhava minha boca, ele olhava meu corpo, ele olhava em meu seio, olhava no meio, bem dentro de mim...”. Dança ritmada em som de dentro, mão pega mão pernas troncos lábios mordiscadas, era tudo sincrônico, várias fases rotatórias desse planeta nosso, endiabrados, deuses, anjos caídos num mar de sexo, lobos uivando, saltos mortais em rios de fogo. “... No princípio o perigo, depois eu olhava eu olhava, não tinha receio, desejava queria no precipício abrir minhas asas desvendar o segredo...”. Corria lavas deste nosso vulcão, até pensei em não ir não me deixar levar de fugir, mas como teria me arrependido, mesmo sem saber, eu iria me arrepender, porque estou sou devo ser mais mulher agora, sem idade sem identidade sem qualquer coisa que delimite espaços tempo atos. “... Seu olhar penetrante, invadia ofegante no meio de mim, rasgava o meu ventre o meu corpo inteiro, me vendo por fora, me vendo por dentro, do princípio ao fim...”. Para que flores, chocolates se o que me faz ferver está aqui, está no meio de tudo de mim do caos aéreo e solo fértil sendo roçado plantado chovido, sem cobranças sem aquarelas em tons pastel sorrateiro contexto de fluxo estica e puxa dança bem dançada ciranda vespertina, chamem-me por qualquer coisa nome soltem fogos de artifícios acendam-me sinto sou iluminada brilhante. “... Depois me olhou, me olhou, me olhou de baixo para cima, em cima, embaixo, dentro de mim, queimando, queimando...”. Varias vezes estive por aí mas nunca aqui desse jeito frenética forma luxúria de ser, sem culpas, sem neuras, porque sou sabida de minha leveza do pesado hábito de ser pelos outros e hoje fui sou minha totalmente minha por mais que esteja entre outro aquele esse que estranhamente me fez ser naturalmente genuinamente minha eu toda. “... O céu o inferno, o paraíso é assim, onde passou tão pouco deixou, só um rastro de fogo queimando em silêncio, o incêndio do amor.”Assim como feixe de luz, como mata pegando fogo e os bichos correndo para todos os lados, loucos, desvairados, amedrontados, mas eu não, eu loba, eu selvagem fico sem medo, enfrento, sigo adiante, mesmo sabendo que amanhã estarei queimada ferrada como gado marcada para sentir sempre a falta deste lobo mau bom demais que me inundou de tantas águas enchente barragem no sertão de flores.


*Livre inspiração na canção Estranho Rapaz – Roberto Mendes/Capinam e na Personagem de Maitê Proença na novela Passione.

3 comentários:

ana disse...

aquele jeito lobo tolo de ser (fêmea) do qual somos irremediavelmente escravos.

é lindo, é verdadeiro.

Regina disse...

Talvez se eu mesma tivesse escrito este texto, quem sabe estaria livre para vivê-lo.

Danielle Freitas disse...

Perdi o fôlego!

Novos espaços, outros cantos


Cabeças Cortadas Universo de Retalhos - Parceria com minha irmã Danielle Freitas

Parte de mim - o que vira escrita...

Os que me olham, me sentem e me acomapanham

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